Mães Paralelas (2021): os homens sempre erram com as memórias das mulheres

As construções das memórias são umas das coisas mais importantes que têm na vida das mulheres, já falei disso algumas vezes, principalmente quando acontece sobre as mulheres uma coisa chamada esquecimento compulsório. Pergunto a você, minha leitora, quantas coisas você se fez obrigada a esquecer? Ou quantas vezes lhe faltou referência em formato de mulheres para que você continuasse porque nós somos apagadas da História? Tudo isso faz parte de um projeto de esquecimento.

A construção que Pedro Almodóvar tenta fazer das mulheres sempre será um erro, pois ele é homem, branco e gay. Esse último demarcador não o faz ser menos machista e misógino, mesmo que ele esteja falando dos perigos de uma ditadura, ainda sim, a única memória a ser resgatada é do pai, do avô, do marido… podendo ser pessoas diferentes ou estando todos num mesmo homem, ele erra quando as mulheres são as que mais somem em ditaduras ou em guerras.

Outro grande problema é a construção das narrativas de todas as mulheres ali. Claro que são mulheres diferentes e que geram uma dinâmica de poder bastante particular quando usado a maternidade para aproximar as mulheres e também para separar. Observe: todas as mulheres ali estão consumidas pela lógica de cuidado e do descuidado, ou seja, estão presas no maniqueísmo que felizmente feministas descoloniais se afastaram quando falam sobre maternidade.

Quando temos as personagens Janis (Penépole Cruz), Milena Smit (Ana), Elena (Rossy de Palma) e Teresa (Aitana Sánchez-Gijón) vemos que a solidão as acompanha, claro, de diferentes formas.

Janis: filha de mãe solo e neta de mãe solo, proletária, está na meia-idade e do interior. Ana: filha de pais separados, burguesa e urbana. Elena: a chefe que é legal demais e carente e a Teresa: a mulher rica que teve uma filha rebelde.

Todas ali têm seus sonhos, seus pesadelos e as suas narrativas, o que as atravessam é o parto (objeto naturalizado pelo patriarcado). Vale também observar que elas se encontram sempre em um ambiente de cuidado; no lar. Mesmo quando Janis encontra Arturo em um bar, isso não é mostrado, pois o lar é ambiente “natural” da mulher. Isso Almodóvar quis deixar claro. Além disso, o trabalho também um ponto importante na vida dessas mulheres… ou seja, são mulheres que têm suas duplas… triplas jornadas… por isso há bastante menções às babás, empregadas domésticas e pedagogas.

Ainda não consegui ver nenhum elemento que humanizasse essas mulheres, nada ali é interessante e nem emocionante, tudo é de um mal gosto. A moça que é expulsa por Janis de casa porque ela não apresenta o grande modelo da menina que será uma boa mãe é um dos exemplos. Mas nenhuma delas são. Mães nunca serão boas o suficiente e, talvez, por isso também usam da maternidade para nos separar em mães e não mães.

Ali podemos ver que é um filme sobre cuidado sem mencionar que é sobre cuidado, Janis, mesmo tendo toda a problemática na maternidade com Cecília, não afirma que “mãe é aquela que cuida”, porque ela, devido ao trabalho, terceiriza o serviço de cuidados. Penso como deve ser isso em países que colonizaram esses serviços de mulheres do sul global… fiquei pensando bastante.

Além disso, nem tudo está relacionado à maternidade. Quando falo que Almódovar gosta de fetichizar o sofrimento das mulheres é quando ele usa de Janis e Ana como se elas tivessem quase uma obrigação de ser um casal afetivo sexual que nada mais é que apresentar a heteronormatividade nas relações. Fazer com que Ana se pareça com uma mulher paranoica e possessiva e depois colocar a culpa na sua relação com sua mãe é ignorar completamente que mulheres são alvos fáceis para sofrer por abandono. Além disso, uma forma nojenta de retratar as relações entre as mulheres, não, não precisamos mais disso.

Voltando aqui, olhe bem pra Janis, ela foi abandonada por Arturo, ele optou por não exercer sua paternidade porque, a princípio, a criança era “étnica” demais, além disso, Janis como amante jamais iria ocupar o mesmo espaço que a esposa ‘legítima” com câncer de Arturo.

Ou seja, Almodóvar apresenta uma série de mulheres doentes. Você não vê problemas nisso? Repare em todas as mulheres ali e como elas constroem suas memórias. Todas vamos morrer doentes querendo saber quem são os homens de nossas vidas.

A paternidade aqui, por mais que pareça que hoje as mulheres optam por ser “mães solos” e o filme reforça isso de maneira superficial, não é bem uma escolha. A paternidade ainda permite um controle muito grande sobre mulheres e crianças, logo, muitas, com condições ou não, porque não há uma pesquisa que mostre que só mulheres ricas “escolhem” ser mães solos, evitam o homem-pai porque eles têm potencial para serem extremamente controladores. Sobre filhos e filhas quem sempre teve escolha foi o homem, do nada eles somem ou aparecem…

O uso de um subtexto político não suaviza o machismo e fetichismo que Almodóvar tem no sofrimento das mulheres e é um desrespeito enorme para todas as subjetividades das mulheres e como isso é usado no campo público. Almódovar deveria ao menos deixar claro do porquê mulheres ter a “pátria” como uma memória a ser explorada, mulheres esquecidas, expatriadas e abandonadas em terra desconhecida tem um contato diferente com o território, longe das discussões sobre nacionalismo, mas sei que a tentativa de Almódovar é mostrar que a pátria também é mãe, mas é de onde as mulheres são expulsas, porque pátria é um espaço de forças políticas e de exploração econômica, aqui indico lermos mulheres de Abya Ayla que é muito mais interessante ao meu ver enquanto mulher latina.

Para encerrar, Almodóvar é um homem que erra ao construir as memórias das mulheres, nossos úteros não são o que continuam a história, nosso corpo com nome, rosto e endereço sim.

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gi del fuoco

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