Insecure (2016–2021): a vida coletiva dará certo se você se virar sozinha

Quando comecei a assistir Insecure fiquei com medo de que fosse mais uma bobagem usando o humor ácido. Mas a Issa Rae, que também interpreta a Issa Dee, entregou tudo na direção dessa série.

Primeiro, que assim, me explode a cabeça ver personagens complexas, não que essa complexidade seja mostrada em uma grande discussão de como ela usa da Filosofia Moderna para resolver sua vida, mas como ela mesma se usa para resolver sua vida, ou seja, o cotidiano.

Eu adoro produções que tenham essa pegada, claro, você que me lê deve saber disso já, se não sabe, fique sabendo agora e, favor, não esquece. Isso é muito sério para mim.

A Issa é uma personagem tão… a gente? Claro que ela é uma mulher negra e sofre coisas que jamais sofreria, mas como ela está nos Estados Unidos, dentro de uma classe média, isso se dá de outra forma, logo fica muito honesto com o contexto. Um coisa legal que é levantada também é como o racismo não é igual em todos os lugares do mundo. A negra e o negro nos Estados Unidos conseguem ascender se ambos acreditarem na meritocracia, um bom exemplo disso é todos que estão ao redor de Issa, como sua melhor amiga, Molly, seu companheiro, Lawrence, e também o Daniel King, esse último que mostra toda a frustração da indústria da música e as inseguranças que eles têm.

Bom, cada personagem ali tem sua histórias individual que se encontra nos coletivos que estão. Isso que é incrível, por isso o título do texto “a vida coletiva dará certo se você se virar sozinha”.

Atenção: há spoiler

Começando por Lawrence, ele não virava muito bem sozinho, né? Até que Issa resolve romper o casamento porque não estava mais satisfeita. Mas quem disse que romper representa um fim de tudo? Felizmente as produções atuais estão rompendo com ele “fim” que colocavam nos finais dos textos e filmes de romance. Não existe fim. Uma vez feita tal coisa, vivida tal coisa, essa coisa sempre vai estar ali, mas de uma outra forma, uma forma transformada. Ou seja, as coisas se transformam.

O que Issa e Lawrence viveu foi muito deles. Foi importante para ambos, e o mais legal que é ela e ele reconhece isso e cuida muito um do outro porque sabe da história deles, eles se conhecem e é possível fins não serem ruins, ou até mesmo dizer que até relacionamentos bons terminam ou podem viver sem “rótulos” só com vontades. Mas isso cabe uma outra discussão, o mais interessante é que ninguém sabe como terminou. Será que Lawrence está sendo um bom pai no seu mega apartamento?

Já a Molly nos passa uma imagem de mulher bem-sucedida, advogada de empresas importantes, uma mulher negra com cargos de poder em uma empresa de brancos, mas quando ela decide ir para uma empresa de negros tudo muda, absolutamente tudo. Essa critica é perfeita e paciência que tiveram de construir essa mudança é o mais interessante. Recomendo você assistir cada detalhe e de como ela se sente mais explorada pelos negros de sua empresa, principalmente quando ela diz: “porque a tecnologia das empresas negras são tão desatualizadas?” Por que? Você sabe responder. Talvez porque eles não queriam parecer com empresas brancas, mas. por um lado, estão disputando o mesmo mercado? É complexo, né?

Além disso, tudo isso se mostra na vida amorosa de Molly. Mulheres bem sucedidas não sabem se relacionar? Não sei. Me parece meio esquisito isso, mas tem um pingo de verdade. Assumir compromissos com outros exige tempo, dedicação e mil coisas a mais, logo a Molly não ter um relacionamento explique o motivo do seu sucesso. O capitalismo não permite dualidade para as mulheres.

Bom, há várias coisas que aparecem a série, né? Tudo se misturando, principalmente trabalho e vida, porque essas coisas, na verdade, nunca devem ser separadas. O tempo que você tira para se permitir, é a organização do trabalho que está sendo permissiva, não o contrário. É, é o capitalismo. Bem como acontece com Daniel, onde o local de trabalho dele é onde uma boa parte das pessoas se divertem, a música. Um personagem maneiro, gostei dele, mas que também entende que se envolver com as pessoas o faria mal quanto ao seu trabalho.

Ou seja, é uma série sobre trabalho e heterossexismo, claro.

Mas o que mais me interessa na série é a vida de Issa.

Ela é incrível, né?

A mais livre dali por não buscar perfeição nem alianças com quem quer alcançar o sucesso. Ela é muitas em uma só. A Issa que faz rap sobre vaginas. A Issa que trabalha numa ONG. A Issa que tem preconceitos contra latinas e latinos. A Issa que erra. A Issa que acerta. A Issa uber. A Issa pobre. A Issa que teve pais e uma casa com pisicna. A Issa que não quis ser advogada. A Issa que chora consigo. A Issa que ri si. A Issa pobre. A Issa pode ser qualquer uma de nós porque ela é humana.

Me acalma ver que nem tudo vai dar certo e que está tudo bem, porque você que quer resolver seus b.os aprende a se virar sozinha e sabe escolher quem você quer para seu coletivo.

A maior lição da Issa é essa; ser irracional.

A razão todas temos isso. Mas a vida não é da razão. E querer ter essa razão sempre nos adoece. Veja a série. As coisas mais bem sucedidas ali é quando você aceita que a vida é isso, nem perfeita, nem ruim demais, é apenas atravessadas de inúmeras coisas criadas por outros seres humanos. Ou seja, um dia pode estar tudo bem, noutro dia nem tão bem assim… E está tudo bem?! Pra Issa, sim. Por isso gostei da série. Ela não segue uma lógica clichê e conceitual que tudo vai ter um começo, meio e fim e cheio de significados profundos, a vida não é profunda. A vida só é a vida.

Aproveite-a da melhor forma enquanto estamos aqui.

Valeu, Issa!

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Beijos científicos,

@historiadora.radical (no instagram)

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